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O Oleiro e o Barro | Por George Whitefield

“A palavra do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: 2 Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. 3 E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, 4 Como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. 5 Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: 6 Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel” (Jeremias 18:1-6)

 

Em diversas ocasiões e de diversas maneiras, agradou a Deus falar aos nossos pais pelos profetas, antes de falar a nós nestes últimos dias por Seu Filho. Para Elias, Ele se revelou através de uma voz tranquila. Para Jacó, por um sonho. Com Moisés, falou face a face. Em alguns momentos Ele se agradou de enviar um profeta escolhido em alguma tarefa especial; e enquanto ele era assim usado, este profeta era agraciado por Deus com uma mensagem particular, a qual era ordenado a anunciar a todos os habitantes da terra. Um exemplo muito instrutivo deste tipo de mensagem nós temos registrado nesta passagem que acabamos de ler para vocês. O primeiro versículo nos informa que foi uma palavra, ou mensagem, que veio imediatamente do Senhor para o profeta Jeremias. Mas não somos informados em que momento, ou como o profeta foi direcionado quando ela veio. Talvez, enquanto ele estava intercedendo por aqueles que não orariam por si mesmos. Talvez, ao amanhecer, quando o profeta ainda estava dormindo ou meditando em sua cama.

 

Mas o que interessa é que a palavra veio a ele, dizendo: “Levanta-te”. E o que ele deveria fazer ao se levantar? Ele tinha “que descer à casa do oleiro” (e o profeta sabia onde encontrá-lo) “lá [diz o grande Yahwéh] te farei ouvir as minhas palavras”. Jeremias não procura carne e sangue, ele não se opõe dizendo que estava escuro ou frio, ou deseja que possa receber a mensagem ali mesmo, mas sem a menor hesitação imediatamente é obediente à visão celestial. “E [disse Jeremias] desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas”. Assim que ele estava entrando na casa ou na oficina, o oleiro, ao que parece, tinha um vaso em sua roda. E havia algo tão extraordinário nisso, que deveria ser introduzido com a palavra “Eis”? Que sonhador visionário ou entusiasta supersticioso Jeremias seria considerado mesmo por muitos que liam suas profecias com aparente respeito, ele estaria vivo agora? Mas esta não foi a primeira vez que Jeremias ouviu a Deus desde o Céu desta maneira. Ele prontamente obedeceu; e se eu e você tivéssemos o acompanhado até a casa do oleiro, creio que o veríamos em silêncio e aguardando intensamente o seu Grande e Sábio Comandante para saber por que o enviou ali. Parece-me que o vejo com total atenção. Ele notou que o vaso era de “barro”, e aconteceu que quando o oleiro o segurou entre as mãos e girou a roda, a fim de trabalhá-lo de alguma forma particular, “quebrou-se na mão do oleiro”, e consequentemente ficou impróprio para o uso intencionado. E o que faz ele então com o vaso estragado? Estando o vaso tão desfigurado, suponho que o oleiro, sem a menor injustiça, poderia tê-lo jogado de lado e ter tomado outra quantidade de argila em seu depósito, ele não fez isso, mas, “tornou a fazer dele outro vaso”. E por acaso o oleiro pede conselho aos seus domésticos e lhe pergunta que tipo de vaso eles o aconselham a fazer? Não, de forma alguma. Ele fez um vaso novo “conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer”.

 

“Então”, acrescenta Jeremias, enquanto estava no caminho do dever, estava mentalmente suplicando, Senhor, o que Senhor quer que eu faça? “Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro [deformado, estragado e impróprio para o primeiro propósito designado], assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel”. Finalmente, Deus dá a Jeremias o seu sermão: curto, mas pungente, o qual deveria ser anunciado a toda a casa de Israel, aos príncipes, aos sacerdotes e ao povo: curto, mas pungente, ainda mais afiado do que uma espada de dois gumes.

 

“O quê?”, diz o soberano Senhor do Céu e da Terra, “me seria negado o privilégio de um oleiro comum? Não posso fazer o que Eu quero com que é Meu? Eis que o barro está nas mãos do oleiro, assim vós estais nas minhas mãos, ó casa de Israel. Eu vos criei e formei em povo, e vos abençoei acima de qualquer outra nação debaixo do céu; assim como o oleiro poderia simplesmente ter jogado de lado o seu vaso de barro estragado, assim também Eu poderia ter lhe deserdado da assembleia e lhe feito deixar de ser povo. Mas, o que Eu poderia fazer se Eu passasse sobre as montanhas de sua culpa, curasse suas feridas, reavivasse a minha obra neste tempo e lhe desse um fim grande e maravilhoso? Eis, que o barro está nas mãos do oleiro, e está à sua disposição, ou para ser destruído ou para ser transformado em outro vaso, assim vós estais em minhas mãos, ó casa de Israel: Posso tanto rejeitar-lhe e, assim, lhes arruinar ou revisitar e revivificar-lhes de acordo com a minha soberana vontade e prazer, e quem pode me dizer: Que fazes?”.

 

Esta parece ser a interpretação genuína e a intenção primária dessa bela porção da Escritura Sagrada. Mas considerando todos os questionamentos sobre o seu propósito principal ou significado, vou agora mostrar que aquilo que o glorioso Yahwéh diz aqui em geral para a casa de Israel é aplicável a cada indivíduo da humanidade em particular. E como eu presumo que isso pode ser feito sem torcer a Escritura, por um lado, ou forçar o seu significado original por outro. E para não me deter por mais tempo, deduzirei e me esforçarei para explicar da passagem assim explicada e parafraseada, estes dois tópicos gerais.

 

EM PRIMEIRO LUGAR, provarei que todo homem que nasceu naturalmente da descendência de Adão, é à vista dAquele que tudo vê e que perscruta os corações, apenas como um “caco de barro arruinado”.

 

EM SEGUNDO LUGAR, que, sendo assim, o homem natural necessariamente deve ser regenerado; e sob essa linha de raciocínio também indicaremos por que agência essa poderosa mudança deve ser feita.

 

Essas particularidades serão discutidas de maneira que serão naturalmente levadas a uma breve palavra de aplicação.

 

 

I. Buscarei provar que todo homem que nasceu naturalmente da descendência de Adão, é à vista dAquele que tudo vê e que perscruta os corações, apenas como um “caco de barro arruinado”.

 

Agradem-se em observar que cada homem NATURALMENTE nascido na descendência de Adão, ou todo homem desde a Queda; pois se considerarmos o homem como ele primeiro saiu das mãos de seu Criador, ele estava longe de estar em tal melancólica circunstância. Não, o homem era originalmente exaltado; ou como Moisés, aquele escritor sagrado, declara: “E criou Deus o homem à sua imagem” [Gênesis 1:27a]. Certamente nunca tanto foi expresso em tão poucas palavras; que muitas vezes me faz ficar impressionado como esse grande crítico Longino, que tão justamente admira a dignidade e a grandeza do relato de Moisés sobre a criação, e “E disse Deus: Haja luz; e houve luz” [Gênesis 1:3]. Eu me pergunto porque ele não leu um pouco mais e concedeu apenas uma aclamação desta curta, porém inexplicavelmente nobre e abrangente descrição da formação do homem: “criou Deus o homem à sua imagem”. Com um profundo senso dessa bondade maravilhosa, e sabendo que ele poderia gravar o mesmo em um sentido mais profundo em nossas mentes, ele imediatamente acrescenta: “à imagem de Deus o criou” [Gênesis 1:27b]. O conselho adorável da Trindade foi aludido nesta importante ocasião: Deus não disse: Haja um homem, e houve um homem, mas Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” [Gênesis 1:26]. Esse é o relato que os vivos oráculos de Deus nos dão do homem em seu primeiro estado; mas é muito notável a transição do relato de sua criação para o de sua miséria, o qual é muito rápido, e por quê? Por uma razão muito boa, porque ele logo caiu de sua dignidade primitiva; e por essa Queda a imagem divina foi tão desfigurada, que agora deve ser valorizada apenas como algo antigo, como o valor de uma medalha antiga, apenas por causa da imagem e da inscrição uma vez impressa sobre ela; ou deve ser valorizada por causa de uma segunda impressão divina, que, pela graça, ainda pode receber.

 

Examinemos o homem e vejamos se essas coisas são assim ou não. Em primeiro lugar, quanto ao seu ENTENDIMENTO. Como o homem foi originalmente criado “segundo Deus no conhecimento”, bem como em verdadeira santidade e justiça, podemos deduzir racionalmente que seu entendimento quanto às coisas naturais e divinas possuía uma extensão prodigiosa: já que o homem foi feito um pouco menor do que os anjos, e consequentemente sendo como eles, excelente em seu entendimento, ele sabia muito de Deus, de si mesmo e tudo ao seu respeito; e nisso, assim como em todos os outros aspectos, era, como o Sr. Golter expressa em um de seus ensaios: “um supervisor perfeito”; mas esse está longe de ser nosso assunto agora. Pois, em relação às COISAS NATURAIS, nossos entendimentos estão evidentemente escurecidos. É muito pouco o que podemos saber, e mesmo esse pequeno conhecimento que podemos adquirir é com muito cansaço da carne, e estamos condenados a ganhá-lo como fazemos com o nosso pão de cada dia, ou seja, com o suor do nosso rosto.

 

Os homens de mentes medíocres e estreitas logo se consideram sábios em seus próprios conceitos: e tendo adquirido um pouco de conhecimento das línguas conhecidas e tendo alguma pequena proficiência nas ciências exatas, são facilmente tentados a olhar para si mesmos como tendo inteligência privilegiada quando comparados aos seus companheiros mortais, e, em consequência disso, muitas vezes são cheios de palavras de vaidade. Mas as pessoas que possuem mais elevado e extenso alcance de pensamento não se atrevem a se gabar. Não, os tais sabem que os maiores estudiosos estão como que no escuro, até mesmo em relação às menores coisas da vida: e depois de todas as suas pesquisas dolorosas sobre as coisas da natureza, eles encontram um vazio imenso, uma extensão imensurável ainda a ser explorada, que eles são obrigados a concluir finalmente, quase com respeito a tudo: “que eles ainda não sabem nada como convêm saber” [Cf. 1 Coríntios 8:2]. E sem dúvida, essa consideração levou Sócrates, quando foi perguntado por um de seus eruditos por que o oráculo lhe declarou o homem mais sábio na terra, a dar esta resposta judiciosa: “Talvez seja, porque eu sou o mais sensível à minha própria ignorância”. Quisera Deus que todos os que se chamam Cristãos tivessem aprendido tanto quanto esse pagão! Então, não ouviríamos mais tantos homens eruditos, falsamente assim chamados, demonstrarem sua ignorância, vangloriando-se da vastidão de seu entendimento superficial, nem se dizendo tão sábios, provando serem apenas tolos pedantes.

 

Se avaliarmos os nossos entendimentos com relação às coisas espirituais, veremos que eles não são apenas obscurecidos, mas se tornam as próprias trevas: “trevas que se apalpem” [Cf. Êxodo 10:21]. Isso pode ser visto por todos que não são insensíveis. E como poderia ser de outro modo, uma vez que a Palavra infalível de Deus nos assegura que estamos alienados da luz da vida de Deus e, portanto, naturalmente incapazes de julgar as coisas divinas e as espirituais. Comparativamente falando, como um cego de nascença é incapacitado de distinguir as várias cores do arco-íris. “O homem natural [diz o apóstolo inspirado] não compreende as coisas do Espírito de Deus”, elas estão tão além de sua compreensão que “lhe parecem loucura”, e por quê? Porque elas “se discernem espiritualmente” [1 Coríntios 2:14]. Por isso Nicodemos, que foi abençoado com uma revelação externa e divina, o qual era um legislador dos judeus e um mestre em Israel, quando nosso Senhor lhe disse que “necessário lhe era nascer de novo”, parecia estar bastante confuso. “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Como poderia isto acontecer?” [Cf. João 3:4]. Estas foram as três perguntas mais absurdas já propostas pelo mais ignorante dos homens? Ou pode haver uma prova mais clara da cegueira do entendimento humano, em relação às coisas divinas assim como das coisas naturais? Logo, o homem não é um caco de barro arruinado?

 

Isso nos parecerá ainda mais evidente, se considerarmos a PERVERSA INCLINAÇÃO DE SUA VONTADE. Sendo feitos a própria imagem de Deus; sem dúvida, antes da Queda, o homem não tinha outra vontade senão a do seu Criador. A vontade de Deus e a de Adão eram como uníssonos em uma música. Não havia a menor separação ou discórdia entre eles. Mas agora o homem tem uma vontade diretamente contrária à vontade de Deus, como a luz é contrária as trevas e o Céu é contrário ao Inferno. Todos entraram no mundo com uma mente carnal, que não é apenas inimiga de Deus, mas é a “inimizade em si mesma, e que, portanto, não se sujeita à lei de Deus, nem poderia ser de outro modo” [Cf. Romanos 8:7].

 

Muitos se mostram zelosos em falar contra o homem do pecado, e em voz alta (e, de fato, muito justamente) clamam contra o Papa por sentar-se no templo, quero dizer na igreja de Cristo e “se levantar contra tudo o que se chama Deus” [2 Tessalonicenses 2:4]. Mas não digas dentro de ti mesmo que irá até Roma para derrubar esse anticristo espiritual. Como se não houvesse um anticristo dentro de nós. Pois saiba, ó homem, seja quem você for, existe um anticristo infinitamente mais perigoso, porque menos discernido, que é a SUA PRÓPRIA VONTADE, que se acomoda diariamente no templo do seu coração, exaltando-se acima de tudo o que se chama Deus e obrigando todos os seus devotos a dizerem do próprio Cristo, o príncipe da paz: “Não queremos que este reine sobre nós” [Lucas 19:14]. O povo de Deus, cujos sentidos espirituais são exercitados nas coisas espirituais e cujos olhos são abertos para ver as abominações que estão em seus corações, frequentemente sentem isso com muita tristeza. Quer queiram ou não, essa inimizade de vez em quando insurge dentro deles, e apesar de toda a sua vigilância e cuidado, quando estão sob a pressão de alguma aflição dolorosa, de uma longa solidão ou de uma noite de tentação tediosa, muitas vezes encontram algo crescendo no seu peito como uma rebelião contra as disposições sábias da divina providência, e dizendo a Deus o seu Pai celestial: “Que fazes?”. Isso os faz chorar (e não é de se admirar, que venha a constranger um dos maiores santos e apóstolos que foi o primeiro a introduzir a expressão: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Romanos 7:24]). A alma espiritual e regenerada geme assim ao estar sobrecarregada; mas quanto ao homem natural e não desperto, não é assim com ele; a sua vontade própria, assim como todos os outros males, de uma forma latente e discernível, reina em sua alma não regenerada; provando a ele e demonstrando aos outros — que ele saiba ou não, quer ele confesse ou não— que em relação às falhas de sua vontade assim como de seu entendimento, o homem é apenas um caco de barro arruinado.

 

Uma observação breve das AFEIÇÕES do homem caído confirmará ainda mais firmemente esta triste verdade. No paraíso de Deus, as afeições sempre foram mantidas dentro de limites próprios, fixadas em seus próprios objetivos e, como rios suaves, doces, espontâneas e habitualmente corriam em direção ao oceano, que é Deus. Mas agora a cena está diferente. Pois somos naturalmente cheios de afeições vis, que, como uma torrente poderosa e impetuosa, carregam tudo diante de si. Nós amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar; tememos o que devemos esperar e esperamos o que devemos temer; nossas afeições chegam a tal altura ingovernável, que embora nossos julgamentos sejam convencidos do contrário, ainda assim satisfaremos nossas paixões embora seja à custa de nosso bem-estar presente e eterno. Sentimos uma guerra de nossas afeições, lutando contra a lei de nossas mentes, e nos trazemos cativos à lei do pecado e da morte. Assim, “video meliora proboque, deteriora foquor”, é muitas vezes a prática de todos nós.

 

Sinto que muitos se ofendem quando a humanidade é comparada a bestas e a demônios. E eles poderiam ter alguma sombra de razão por pensar assim, se afirmássemos em um sentido físico, que eles eram realmente bestas e eram demônios. Pois, como ouvi certa vez um prelado muito instruído, que se opunha a essa comparação, observar: “um homem sendo uma besta seria incapaz, e sendo um demônio, estaria sob a impossibilidade de ser salvo”. Mas quando fazemos uso de tais comparações chocantes, como ele se agradou de chamá-las, queremos afirmar isso apenas em um sentido moral; e, ao fazê-lo, afirmamos não mais do que alguns dos mais santos homens de Deus disseram de si mesmos, e outros, nos oráculos vivos há muitos séculos. O santo Asafe, o salmista, falando sobre si mesmo, diz: “Assim me embruteci, e nada sabia; fiquei como um animal perante ti” [Salmos 73:22]. O santo Jó, falando do homem em geral, diz que “o homem nasce como a cria do jumento montês” [Jó 11:12]. E assim diz o nosso Senhor: “Vós tendes por pai ao diabo” [João 8:44], e também é dito houve um tempo em que todos “andaram segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência” [Cf. Efésios 2:2], isto é, em todas as almas não regeneradas. A nossa estupidez e prontidão para fixar as nossas afeições nas coisas terrenas, e a nossa ânsia de fazer provisão para a carne, para cumprir as suas concupiscências, evidenciam que somos terrenos e embrutecidos; e nossas paixões mentais: raiva, ódio, malícia, inveja e coisas semelhantes, provam com igual força que somos também diabólicos. Ambas juntos conspiram para demonstrar que, no que diz respeito às suas afeições, bem quanto ao seu entendimento e sua vontade, o homem merecidamente pode ser chamado de um caco de barro arruinado.

 

A atual CEGUEIRA DA CONSCIÊNCIA NATURAL faz com que isso seja mostrado em uma luz ainda mais evidente. Na alma do primeiro homem Adão, a consciência era sem dúvida iluminada pelo Senhor e lhe permitia discernir de forma justa e instantânea entre o bem e o mal, o certo e o errado. E, bendito seja Deus, alguns resquícios de discernimento ainda foram deixados; mas infelizmente, quão pequena é sua chama, e quão fácil e rapidamente é coberta, apagada e extinguida. Eu não preciso lhes enviar para o mundo pagão para que aprenda a verdade disso; todos o sabem por experiência própria. Não há outra evidência necessária, já que as suas próprias consciências são melhores do que mil testemunhas, que o homem, no que diz respeito à sua consciência natural assim como ao seu entendimento, sua vontade e suas afeições são como barro arruinado.

 

Nem aquela grande e vangloriada Diana, ou seja, a RAZÃO NÃO AJUDADA E NÃO ILUMINADA pela graça, demonstra menos a justiça de tal afirmação. Longe de mim que censure ou brade contra a razão humana. O próprio Cristo é chamado de “LOGOS, a Razão”, e creio que não exigiria muito aprendizado ou seria necessário muito tempo para provar que se até agora agimos de acordo com as leis de Cristo Jesus, estamos nós conformado às leis da razão correta. Seu trabalho é, portanto, chamado de “culto racional” [Romanos 12:1]. E, ainda assim, os Seus servos e seguidores podem agora ser considerados como tolos e loucos; contudo, chegará um tempo em que aqueles que desprezam e se opõem à revelação divina descobrirão que aquilo que agora chamam de razão é apenas RAZÃO DEPRAVADA e absolutamente incapaz de nos guiar ao caminho da paz, ou mostrar o caminho da salvação, como os homens de Sodoma estavam diante da porta de Ló quando foram atingidos com cegueira pelos anjos, que vieram para levar Ló para fora da cidade. Os erros horríveis e terríveis que os pensadores mais refinados do mundo pagão encontraram tanto no objeto como no modo de adoração divina demonstraram suficientemente a fraqueza e a depravação da razão humana. As melhores provas da grandeza e da força deles, já que o maior ganho que geralmente fazem da razão é apenas raciocinar em infidelidade puramente voluntária, e assim se colocam racionalmente fora da salvação eterna. Precisamos agora de mais alguma testemunha, de que o homem caído é apenas um caco de barro arruinado?

 

Mas isso não é tudo, ainda temos mais evidências a serem mostradas; porque a cegueira dos nossos entendimentos, a perversidade da nossa vontade, a rebelião das nossas afeições, a corrupção das nossas consciências e a depravação da nossa razão provam esta acusação; e além disso, a ESTRUTURA DESORDENADA E A CONSTITUIÇÃO DE NOSSOS CORPOS também não confirmam o mesmo? Sem dúvida a este respeito, o homem, no sentido mais literal da palavra, é um caco de barro arruinado. Porque Deus originalmente o fez do “pó da terra”. De modo que, apesar da nos vangloriarmos de nossas nobres descendências, todos nós estamos originalmente no nível de uma pequena porção de terra que é a substância comum a partir do qual todos nós fomos formados. Realmente era barro, mas barro maravilhosamente modificado, pelo toque imediato das mãos do Criador do Céu e da Terra.

 

Observa-se, portanto, que como se diz: “E criou Deus o homem à sua imagem”; não o formou de modo imprudente ou precipitado, mas o fez segundo o plano estabelecido em Sua mente eterna. Como o grande Deus é sem corpo, partes ou paixões, não podemos supor quando se diz “à imagem de Deus o criou”, que isso tem qualquer referência a seu corpo, contudo eu não posso deixar de pensar (junto com o doutor South) que, assim como o eterno Logos apareceria como Deus manifestado em carne, assim também a sabedoria infinita foi indubitavelmente exercida na formação de um tabernáculo [corpo humano] em que uma pérola tão inestimável deveria ser depositada na plenitude do tempo.

 

É dito que alguns dos antigos afirmaram que o homem antes da Queda tinha o que chamamos brilho de glória que o rodeava; mas sem tentarmos ser sábios acima do que está escrito, podemos ousar afirmar que ele tinha um corpo glorioso, que sem conhecer o pecado, não conhecia a doença nem a dor. Mas agora pode ser justamente chamado Icabode; pois a sua força primitiva e sua glória se afastaram tristemente dele e, como as ruínas de algum tecido antigo e majestoso, apenas dá agora alguma ideia muito pálida do que era quando apareceu pela primeira vez em sua beleza original e perfeita. Assim, o apóstolo Paulo que sabia chamar as coisas por seus nomes próprios, melhor do que qualquer homem vivo, não tem receio de chamar o corpo humano, embora em sua constituição original feito tão assombrosa e maravilhosamente, de um “corpo vil” [Cf. Filipenses 3:21, KJV], visto que que está sujeito a tais doenças vis, a tais usos vis (sim demasiado vis) e a ter um fim tão vil. “Pois somos pó e ao pó tornaremos”. Por isso, entre outras considerações, podemos bem supor, o que levou o bendito Salvador Jesus a chorar perante o túmulo de Lázaro. Ele chorou, não só porque seu amigo Lázaro estava morto, mas chorou por ver a natureza humana, que por suas próprias falhas foi assim arruinada; por estar sujeita a tal dissolução, assim como os animais que perecem.

 

Vamos fazer uma pequena pausa, e com nosso Senhor que tem simpatia por nós, vejamos se não podemos derramar pelo menos algumas lágrimas pela mesma triste ocasião. Quem, entre nós, que, diante dessa melancólica análise da depravação atual, que é real e muito deplorável, tanto no corpo como na alma, pode se abster de chorar por este caco de barro arruinado? Quem pode ajudar a se unir à lamentação do santo Davi sobre Saul e Jônatas? “Como caíram os poderosos, no meio da peleja! Jônatas nos teus altos foi morto” [2 Samuel 1:25]. Originalmente não era assim. Não, “E criou Deus o homem à sua imagem à imagem de Deus o criou”. Nunca tanto foi declarado em tão poucas palavras. O homem foi criado segundo Deus em justiça e verdadeira santidade.

 

Essa é a afirmação que o Livro Sagrado nos dá sobre esse assunto. Esse é aquele Livro abençoado, aquele Livro dos livros, de onde, juntamente com um apelo à experiência de nossos próprios corações e testemunhos de todas as eras passadas, achamos apropriado buscar as provas do que dizemos. Pois, afinal, devemos nos apegar à revelação divina a fim de sabermos o que éramos, o que somos e o que devemos ser. Nas Escrituras Sagradas, como em um verdadeiro espelho, podemos ver nossa própria e verdadeira aparência. E só a partir disso podemos traçar a origem e a fonte de todos esses males inumeráveis, que, como um dilúvio, transbordam no mundo natural e moral. Se alguém se opuser à autenticidade dessa revelação e, consequentemente ser contra a doutrina extraída daí, tal pessoa, na minha opinião, somente a confirma ainda mais. Pois, a menos que um homem estivesse realmente muito desorientado no que concerne ao seu entendimento, à sua vontade, às sua afeições, à sua consciência natural e ao seu poder de raciocínio, jamais poderia negar tal revelação, que se baseia em uma multiplicidade de evidências externas infalíveis e em muitas evidências internas com o selo divino em cada página que são tão adequadas às exigências comuns de toda a humanidade, que é apropriada à experiência de todos os homens e que foram tão maravilhosamente preservadas e anunciadas a nós, que tem sido tão instrumental para o convencimento, conversão e consolação de tantos milhões de almas e que resistiu ao teste dos escrutínios mais severos e críticas dos inimigos mais sutis e refinados, bem como aos mais maliciosos inimigos e perseguidores que já viveram, desde o início do tempo até hoje.

 

Penso que as pessoas de tal inclinação de espírito devam ser levadas a Deus em oração, invés de gastarmos tempo em debates com elas, só assim, essa perversa maldade de seus corações poderá lhes ser perdoada: “Eles estão em fel de amargura e devem ter suas consciências cauterizadas” [Cf. Atos 8:23; 1 Timóteo 4:2], e eles tem seus olhos “cegos pelo deus deste mundo” [2 Coríntios 4:4], senão não poderiam deixar de ver, sentir e concordar com a verdade dessa doutrina de que todos os homens são totalmente depravados; que não só em uma ou duas, mas em uma ou dois mil vezes, em cada página, eu poderia afirmar, está escrito, em caracteres legíveis, que até aquele que corre poderia ler. Na verdade, a própria revelação em si é fundamentada sobre a doutrina da Queda. Se mantivéssemos nossa integridade original, a lei de Deus teria sido escrita em nossos corações, e assim a necessidade de uma revelação divina, pelo menos tal como a que temos, nunca teria existido; mas, em vez de nos rebelarmos contra Deus, devemos estar cheios de inefável gratidão a nosso Criador generoso, que por algumas linhas em seu próprio livro nos revelou mais do que todos os filósofos e homens mais instruídos poderiam, ou teriam descoberto, mesmo que estudassem por toda a eternidade.

 

Estou bem ciente de que alguns que fingem possuir a eficácia da revelação divina são, não obstante inimigos da doutrina que agora está sendo pregada, e se esquivarão da força das provas geralmente usadas para defendê-la, dizendo, que essas falam somente da corrupção de pessoas particulares ou que se referem apenas ao mundo pagão. Mas essas pessoas erram, não conhecendo seus próprios corações, nem o poder de Jesus Cristo, pois por natureza não há diferença entre judeus ou gentios, gregos ou bárbaros, escravos ou livres. Somos igualmente abomináveis aos olhos de Deus, todos igualmente destituídos da glória de Deus e, consequentemente, somos todos igualmente cacos de barro arruinados.

 

Como Deus permitiu a Queda do homem? Por quanto tempo o homem viveu no Paraíso antes de cair? E como a corrupção contraída pela Queda, é propagada a cada indivíduo de sua espécie, são questões de tal natureza ocultas e críticas, que se eu me comprometo a respondê-las, seria apenas para gratificação de uma curiosidade pecaminosa, e para tentar você, como Satanás tentou os nossos primeiros pais, a comer o fruto proibido. Será muito mais apropriado para o propósito deste atua discurso, que é muito prático, passar a considerar a próxima proposição.

 

 

II. Nesta proposição devo demonstrar para você a absoluta necessidade desta natureza caída de ser regenerada.

 

Eu tive essa necessidade o tempo todo diante de meus olhos, e por conta disso, tenho propositadamente sido tão explícito na primeira parte. Pois Arquimedes certa vez disse: “Dê-me um ponto fixo de apoio e eu moverei o mundo”, sem a menor imputação de arrogância, com a qual, talvez, ele fosse justamente responsável, podemos nos aventurar a dizer: se admitirmos que a doutrina anterior seja verdadeira, então, depois disso, ninguém pode negar a necessidade de o homem ser regenerado.

 

Suponho que posso dar por certo que todos vocês, entre os quais agora prego o Reino de Deus, esperam depois da morte ir a um lugar que chamamos Céu. É o desejo de meu coração e a minha oração a Deus por vocês, é que todos vocês possam ter habitações preparadas para você lá. Mas deixe-me dizer-lhes, se vocês agora podem ver os Céus abertos, e o anjo, com um pé sobre a terra, e outro sobre o mar; se você visse e ouvisse o Anjo da Aliança Eterna, o próprio Jesus Cristo, proclamando “o tempo não mais existe”, e dando a todos um convite imediato para vir ao Céu; o Céu não seria um paraíso para vocês, mas sim um inferno para as suas almas, a menos que, enquanto estão aqui na Terra tenham sido preparadas adequadamente para poderem desfrutar dele. Pois “que comunhão tem a luz com as trevas?” [2 Coríntios 6:14]. Ou que comunhão poderiam os filhos não regenerados de Belial com o puro e imaculado Jesus?

 

As pessoas em geral formam ideias estranhas acerca do Céu. E porque as Escrituras, em condescendência com a fraqueza de nossas capacidades, descrevem o Céu por imagens tiradas de deleites terrenas e de grandeza humana, portanto elas são propensas a levar seus pensamentos não mais altos e, na melhor das hipóteses, apenas formar para si uma espécie de paraíso maometano. Permitam-me, porém, que vos diga, e que Deus permita que isso penetre profundamente em vossos corações! O Céu é mais um estado do que um lugar; e consequentemente, a menos que você esteja predisposto por um estado de espírito adequado, você não seria feliz nem mesmo no próprio Céu. Pois o que é graça, senão glória militante? O que é a glória, senão a graça triunfante? Esta consideração fez um autor piedoso dizer, que “a santidade, a felicidade e o Céu, eram apenas três palavras diferentes para uma e a mesma coisa”. E isso fez com que o grande Preston, quando estava prestes a morrer, se voltasse para seus amigos, dizendo: “Estou mudando de lugar, mas não de minha companhia”. Conversara com Deus e com os homens de bem na terra; ele iria manter a mesma e infinitamente mais refinada comunhão com Deus, seus santos anjos e os espíritos dos justos aperfeiçoados, no Céu.

 

Para nos fazer participantes felizes de tal companhia celestial, este “barro arruinado”, isto é, esta nossa natureza depravada, necessariamente sofrerá uma mudança moral universal; nossos entendimentos devem ser iluminados; nossas vontades, razão e a consciência devem ser regeneradas; nossas afeições devem ser atraídas e fixadas nas coisas do alto; e porque a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus, o que é corruptível deve revestir-se de incorruptibilidade, o que é mortal deve vestir-se da imortalidade. E assim as coisas velhas devem literalmente passar, e todas as coisas, tanto o corpo como as faculdades da alma devem se tornar novos.

 

Essa mudança moral é o que alguns chamam de arrependimento, de conversão, de regeneração; escolha o nome que quiser, eu só peço a Deus, para que todos possamos ter essa experiência. As Escrituras chamam de santidade, de santificação, de ser uma nova criatura. E nosso Senhor a chama de “Novo nascimento, nascer de novo ou nascido de cima”. Estas não são apenas expressões figurativas ou delírios da linguagem oriental, nem apenas denotam uma mudança relativa de estado conferida a todos aqueles que são admitidos na igreja de Cristo pelo batismo; mas denotam uma mudança real, moral de coração e de vida, uma participação real da vida de Deus na alma do homem. Alguns, de fato, se contentam com uma interpretação figurativa; mas a menos que tenham experimentados o poder e a eficácia da vida de Deus na alma do homem, por uma experiência viva em suas próprias almas, todo seu aprendizado e toda sua crítica trabalhada não os eximirá de uma condenação real. Cristo o disse e Ele o cumprirá: “aquele” — erudito ou ignorante, alto ou baixo, embora seja um mestre de Israel como Nicodemos — “que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” [João 3:3].

 

Se for questionado, quem é o oleiro? E por que ação esse barro estragado deve ser transformado em outro vaso? Ou, em outras palavras, se for perguntado, como essa grande e poderosa mudança deve ser efetuada? Eu respondo, não por mera força nem através de persuasão moral. Estas coisas são boas quando colocadas em seu devido lugar. E estou tão longe de pensar que os pregadores Cristãos não devem fazer uso de argumentos e motivos racionais em seus sermões, que eu não posso deixar de pensar que aqueles que não podem ou não querem usá-los sejam capacitados para pregar. Temos o exemplo do grande Deus o qual usa tal prática: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor” [Isaías 1:18, ARA]. E Paulo, o príncipe dos pregadores, “arrazoando sobre a temperança, sobre justiça e sobre um juízo vindouro” [Atos 24:25, KJV]. E é notável que enquanto ele estava expondo essas coisas “Félix ficou atemorizado”.

 

Tampouco as tendências mais persuasivas da santa retórica são menos necessárias para um escriba instruído no reino de Deus. As Escrituras tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, em cada parte estão cheias delas. E quando esses argumentos podem ser mais bem empregados e usados do que quando estamos agindo como embaixadores do Céu, e exortamos pobres pecadores, como na presença de Cristo, para que se reconciliem com Deus. Tudo isso nós admitimos prontamente. Mas, ao mesmo tempo, eu iria logo para o cemitério da igreja e tentaria levantar os cadáveres dos mortos dizendo-lhes “saiam”, se eu não esperar por algum poder superior para fazer a Palavra eficaz para o fim designado isto seria como pregar aos defuntos. Eu seria como um latão que retine para qualquer finalidade de salvação, ou como um címbalo soa. Nenhuma mudança será feita pelo poder do nosso livre-arbítrio. Este ídolo está em todo lugar, mas não ousamos nos prostrar e adorá-lo. “Ninguém pode vir a mim [diz o Senhor Jesus Cristo], se o Pai que me enviou o não trouxer” [João 6:44]. O nosso livre-arbítrio, se melhorado, pode nos restringir de cometer muitos males e nos colocar no caminho da conversão; mas, depois de exercermos os nossos maiores esforços (e estamos obrigados a exercê-los), acharemos verdadeiras as palavras de nosso próprio artigo da igreja, que “o homem desde a Queda não tem poder para se voltar para Deus”. Não, nós não poderíamos tentar parar o refluxo e fluir da maré, e acalmar o mar mais tempestuoso, assim como também não podemos imaginar que nós podemos subjugar, ou fazer submeter a regulamentos apropriados, as nossas próprias vontades e afeições indisciplinados por qualquer força inerente em nós mesmos.

 

E, portanto, para que eu não vos deixe mais em suspenso, informo-vos que esse oleiro celestial, esse agente abençoado, é o Espírito Todo-Poderoso de Deus, o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da adorável Trindade, coessencial com o Pai e o Filho. Esse é aquele Espírito, que no início dos tempos se moveu na face das águas, quando a natureza estava em um caos universal. Esse foi o Espírito que cobriu com a Sua sombra a Maria, antes que o Santo nascesse dela. E esse mesmo Espírito deve vir e se mover sobre o caos de nossas almas, antes que possamos ser adequadamente chamados filhos de Deus. Isto é o que João Batista chama de “ser batizado com o Espírito Santo”, sem o qual, os seus e todos os outros batismos, sejam eles infantis ou adultos, nada valem. Esse é o fogo que nosso Senhor veio enviar aos nossos corações terrenos, e que eu rogo ao Senhor de todos os senhores que acenda em cada um dos não regenerados neste dia.

 

Quanto às operações extraordinárias do Espírito Santo, tais como a operação de milagres, ou o falar em diversas línguas, há muito que cessaram. Mas quanto a esse milagre de milagres, de fazer voltar-se a alma para Deus pelas operações mais comuns do Espírito Santo, isso ainda permanece e permanecerá até que fim dos tempos. Pois é Ele quem nos santifica assim como também santifica a todos os eleitos de Deus. Por isso, é dito que os verdadeiros crentes “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” [João 1:13]. A sua segunda criação assim como sua primeira é verdadeiramente e puramente divina. É, portanto, chamado “uma criação”. O apostolo Paulo escreve: “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado”, e como? Assim como o primeiro homem foi, “em verdadeira justiça e santidade” [Efésios 4:24].

 

Essas são as preciosas verdades que um mundo zombador world would fain rally or ridicule us out of. Para produzir essa gloriosa mudança, essa nova criação, foi preciso que o glorioso Jesus deixasse o seio de Seu Pai. Por isso Ele viveu uma vida de perseguição; por isso Ele morreu uma morte ignominiosa e amaldiçoada; para isso Ele ressuscitou; e por isso Ele se assenta agora à direita de Seu Pai. Todos os preceitos de Seu Evangelho, todas as Suas ordenanças, todas as Suas providências, sejam de natureza aflitiva ou próspera, todas as revelações divinas desde o princípio até o fim, todos se centram nesses dois pontos, para nos mostrar nossa Queda e para começar, continuar e completar uma gloriosa e abençoada mudança em nossas almas.

 

Esse é um fim apropriado da vinda de uma pessoa tão divina: Livrar uma multidão de almas de todas as nações, línguas e dialetos, de tantos males morais, e reintegrá-los em uma condição incomparavelmente mais excelente do que a de onde caíram, é um fim digno para a derramamento de sangue tão precioso. Que sistema de religião existe agora, ou alguma vez foi exibido ao mundo, que pode ser de qualquer forma comparado a isso? Pode o esquema deísta pretender em qualquer grau se assemelhar ao sacrifício de Cristo? É por acaso nobre, racional e verdadeiramente divino? Por que então todos os que até agora são estranhos a esta restauração abençoada de suas naturezas caídas, (porque meu coração está muito cheio para que eu me abstenha de mais uma aplicação) por que você ainda quer discutir ou se manter contra ela? Por que você não quer trazer o seu barro para esse Oleiro celestial, e dizer do mais profundo da sua alma: “Converte-nos a ti, ó bom Senhor, e seremos convertidos” [Cf. Lamentações 5:21]. Deus pode e irá fazer isso; quem sabe, se neste mesmo dia, sim, nesta mesma hora, o Oleiro celestial pode tomá-lo em Suas mãos, e fazer de você um vaso de honra, apto para uso do Redentor? Outros que estiveram tão longe do reino de Deus como vocês estão, foram participantes desta bem-aventurança.

 

Que criatura miserável era Maria Madalena? Dela Jesus Cristo expulsou sete demônios. Mas foi a ela que Ele apareceu primeiro, depois que ressuscitou dos mortos, e ela se tornou como se fosse um apóstolo para os próprios apóstolos. Quão cobiçoso era Zaqueu? Ele era um publicano trapaceiro; e ainda assim, talvez, em um quarto de hora, seu coração foi transformado e ele se dispôs a dar metade de seus bens para alimentar os pobres. E para não mencionar mais, que pessoa cruel era Paulo. Ele era um perseguidor, um blasfemador, que promovia muitas injúrias contra os Cristãos; ele respirava ameaças contra os discípulos do Senhor, e fez muitos estragos à igreja de Cristo. E, no entanto, que reviravolta maravilhosa ele encontrou, enquanto viajava para Damasco? De perseguidor, ele se tornou pregador; foi depois transformado em pai espiritual para milhares, e agora provavelmente se senta mais perto do Senhor Jesus Cristo na glória. E por que tudo isso? Para que ele possa ser um exemplo para aqueles que irão crer. Então creia e arrependa-se; eu lhe suplico, creia no Evangelho. Na verdade, é uma boa notícia, é uma notícia de grande alegria. Você não terá mais nada a dizer contra a doutrina do pecado original e nem acusará tolamente o Todo-Poderoso por ter permitido aos nossos primeiros pais comerem uvas verdes, estragando assim os dentes de seus filhos. Você não vai mais vociferar contra a doutrina do novo nascimento, como entusiasta e nem irá classificar os defensores de tais verdades abençoadas com os nomes impróprios de tolos e loucos. Depois de ter sentido, então você vai acreditar; tendo crido, por isso falarás; e em vez de serem vasos para ira, e sendo entesourados cada vez mais para o fogo do inferno, como vasos no forno do Oleiro, vocês serão transformados em vasos de honra, para serem apresentados no grande dia pelo Senhor Jesus, ao Seu Pai celestial, e serem transladados para viver com Ele como monumentos da rica, livre, distintiva e soberana graça de Deus, para todo o sempre.

 

Vocês que, em certa medida, experimentaram a influência vivificante (pois eu não devo concluir sem deixar de transmitir uma ou duas palavras aos filhos de Deus) vocês sabem compadecer-se e, portanto, peço-lhes também que orem por aqueles que por suas circunstâncias foi essa pregação direcionada e peculiarmente adaptada. Mas você vai se contentar em orar por eles? Você não verá razões para orar por vocês mesmos também? Sim, sem dúvida, para vocês também. Vocês sabem o quanto ainda falta na vossa fé, e o quanto estão longe daquele grau de da mente de Cristo que vocês desejam alcançar. Vocês sabem quanto do corpo de pecado e de morte carregam consigo, e que necessariamente devem esperar muitas voltas da providência e da graça de Deus, antes que sejam totalmente libertados. Mas graças a Deus, estamos em boas mãos, mãos seguras. Aquele que foi o autor, também será o consumador de nossa fé. Todavia, mais um pouco de tempo, e nós poderemos dizer com Ele: “Está consumado”, inclinaremos nossas cabeças e passaremos desta para melhor.

 

Até então (pois a ti, ó Senhor, faremos agora nossa oração) ajude-nos, ó Pai Todo-Poderoso, com paciência para possuirmos nossas almas. Eis que somos o barro, e Tu és o Oleiro. Que a coisa formada não diga Àquele que a formou, quaisquer que sejam as futuras dispensações de Tua vontade a nosso respeito: Por que nos tratas assim? Eis que nos colocamos como vazios nas Tuas mãos, trata-nos como parecer bem aos Teus olhos, apenas que cada cruz, cada aflição e toda tentação sejam anuladas pela Tua imagem abençoada sendo formada em nossos corações; que assim de glória em glória, pelas poderosas operações do Teu bendito Espírito, possamos ser feitos cada vez mais conformes e, finalmente, sermos transladados para um pleno, perfeito, infinito e ininterrupto prazer de glória no futuro, conTigo Pai, Filho e Espírito bendito; três Pessoas, mas um só Deus, sejam atribuídos, como é devido, toda honra, toda força, todo poder, a majestade e o domínio, agora e por toda a eternidade. Amém e amém.

 

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