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O Caráter da Segurança Bíblica: Esboço do Capítulo 18 da Confissão de 1689 | Por Tom Nettles

O Caráter da Segurança Bíblica: Esboço do Capítulo 18 da Confissão de 1689 | Por Tom Nettles




— The Founders Journal • Outono de 2014 | Nº 98 —


Este capítulo sugere quatro pontos principais a serem considerados na questão da segurança da salvação. Há material suficiente em cada ponto para uma série de quatro sermões sobre a questão. Cada parágrafo será citado seguido de um esboço expositivo sugerido. Eu também recomendaria para esboços de exposições o sermão de Spurgeon, pregado em 13 de maio de 1888, sobre A Bênção da Plena Segurança (1 João 5:13).

 

18:1. Embora os que creem temporariamente, e outros homens não-regenerados, possam em vão iludir-se com falsas esperanças e presunções carnais de se acharem no favor de Deus e em estado de salvação; esta esperança deles perecerá,1 mas quanto aos que verdadeiramente creem no Senhor Jesus, e O amam com sinceridade, procurando andar em toda a boa consciência diante dEle, estes podem, nesta vida, certificar-se de que eles estão em um estado de graça, e podem regozijar-se na esperança da glória de Deus,2 esta esperança jamais os envergonhará.3

1 Jó 8:13-14; Mateus 7:22-23 • 2 1João 2:3, 3:14,18,19,21,24, 5:13 • 3 Romanos 5:2,5

 

I. Uma segurança bem fundamentada da salvação é possível.

A. Alguns podem professar com grande certeza que são salvos, mas não têm o fundamento do assunto neles. Jesus advertiu que alguns dirão Senhor, Senhor, mas nunca tiveram o coração para amar e obedecer a Cristo (Mateus 7:21-23). Hebreus tem um alerta para aqueles que parecem estar entre o povo de Deus, mas ainda têm um coração perverso de incredulidade (3:12).

B. Verdadeiros crentes podem descobrir nesta vida uma garantia bem fundamentada de que eles realmente foram redimidos por Cristo. João escreveu sua primeira carta em grande parte para dar o verdadeiro conhecimento espiritual da posse da vida eterna. “Estas coisas vos escrevi a vós que creais no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna” (1 João 5:13).

C. Jonathan Edwards escreveu: “Não há dúvida nenhuma que é da maior importância para a humanidade, e que nada mais referente a cada indivíduo deve ser bem resolvido do que as qualificações distintivas daqueles que estão no favor de Deus e têm direito ao seu eterno galardão” (Afeições Religiosas, prefácio).


 

18:2. Esta certeza não é algo meramente conjectural e provável, baseada em uma esperança falível; mas uma infalível segurança de fé,4 fundada no sangue e justiça de Cristo revelados no Evangelho,5 bem como na evidência interna daquelas graças do Espírito em que as promessas são feitas,6 e no testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos que somos filhos de Deus,7 e, como fruto disso, mantendo o nosso coração humilde e santo.8

4 Hebreus 6:11,19 • 5 Hebreus 6:17-18 • 6 2Pedro 1:4,5,10,11 • 7 Romanos 8:15-16 • 8 1João 3:1-3

 

II. A segurança é baseada em uma rede de evidências identificáveis, tanto objetivas quanto subjetivas.

A. Segurança genuína tem uma base objetiva.


1. O sangue e a justiça de Cristo são as duas coisas imutáveis pelas quais quais é impossível que Deus minta. A obra consumada de Cristo garante que Deus salvará os pecadores. Considere a possibilidade de que as “duas coisas imutáveis” de Hebreus 6:18 são definidas para nós em 7:26-28, de onde a confissão provavelmente derivou a frase “o sangue e a justiça de Cristo”.

2. Por causa da natureza da substituição, do resgate, da propiciação e da redenção, o preço que Cristo pagou certamente alcançará o seu propósito gracioso de uma maneira consistente com a justiça. Um pecador pode encontrar a verdadeira segurança apenas porque é certo que Deus através de Seu Filho salvará aqueles dados a Ele.

3. Ele salvará os pecadores que ouvem e creem no evangelho.

 

B. A segurança genuína tem uma realidade subjetiva


1. Aqueles que ouvem para a salvação odeiam o seu pecado, arrependem-se dele e desejam a união com Cristo em Sua justiça.

2. Amam os irmãos e aumentam em seu amor, desejam a santidade e crescem nessa santidade.

 

C. A segurança genuína tem uma base racional afirmada pelo Espírito

1. O testemunho do Espírito com o nosso espírito não é uma revelação especial para nós que somos salvos. Isto não é um testemunho para nosso Espírito, mas com o nosso espírito, ou seja, a consciência racional e moral do homem.

2. Antes, ao examinarmos nossas vidas à luz da revelação da Palavra de Deus, o Espírito ilumina para que nossa mente e nosso coração encontrem repouso na evidência da conformidade com as evidências bíblicas de uma obra genuína do Espírito.

3. Jonathan Edwards, em Afeições Religiosas, escreveu que o significado de Paulo “não deve ser entendido sobre dois espíritos, que são duas testemunhas independentes, colaterais e independentes; mas é através da evidência, infundida e derramada do amor de Deus, o espírito de uma criança, no coração; e nosso espírito, ou nossa consciência, recebe e declara esta evidência para o nosso regozijo”.


Benjamin Keach: “Assim, o Espírito Santo oferece tão clara demonstração e prova para o esclarecimento das evidências do homem sobre o céu, que quando todos os casos são claramente considerados, um pobre santo, embora duvidoso anteriormente, chega a uma boa e plena satisfação quanto a este assunto. O Espírito de Deus e a consciência comparam o estado de um homem com a Palavra de Deus; e se no julgamento parece que essas qualificações são feitas em seu coração, as quais a palavra menciona expressamente, referente à verdade da graça, ele então descobre que não tem mais motivos para duvidar da bem-aventurança de sua condição”. [Tipos e metáforas, 519f]

 

D. Segurança genuína produz santa humildade

1. A segurança genuína não diz: “Continuemos no pecado para que a graça abunde”.

2. Não produz autoconfiança ou arrogância espiritual.

3. Ela enfatiza as misericórdias de Deus e a qualidade puramente imerecida da salvação concedida pela graça de Deus.

4. “A segurança nos fará amar a Deus e louvá-lo”.

5. “A segurança derramará doçura em todos os nossos prazeres como criaturas”.

6. “A segurança nos tornará ativos e dispostos no serviço a Deus”. [Esses três últimos pontos são de Thomas Watson, Um Corpo de Teologia].

 

18:3. Esta segurança infalível não pertence de tal modo à essência da fé, que um verdadeiro crente, antes de possuí-la, não tenha de esperar muito e lutar com muitas dificuldades;9 contudo sendo habilitado pelo Espírito a conhecer as coisas que lhe são livremente dadas por Deus, ele pode alcançá-la, sem revelação extraordinária, no uso correto dos meios.10 E, portanto, é dever de todos empregar toda a diligência para fazer firme a sua vocação e eleição; a fim de que por esse modo, o seu coração possa dilatar-se em paz e gozo no Espírito Santo, em amor e gratidão a Deus, e em força e alegria nos deveres de obediência, estes são os frutos próprios desta segurança,11 a qual está longe de inclinar os homens para o relaxamento.12

9 Isaías 50:10; Salmos 88; Salmos 77:1-12 • 10 1João 4:13; Hebreus 6:11-12 • 11 Romanos 5:1,2,5, 14:17; Salmos 119:32 • 12 Romanos 6:1-2; Tito 2:11,12,14

 

III. Porque a segurança segue a fé e suas evidências, é preciso ser diligente em chegar a uma segurança bem fundamentada baseada no amor de Cristo Redentor.

A. A fé verdadeira pode estar presente onde a segurança pessoal não é clara [observe a palavra “portanto” na confissão], a fé contém a semente da segurança, mas não de tal maneira que imediatamente e imutavelmente carregue a segurança consigo.

1. Spurgeon disse: “Eu falo carinhosamente aos mais fracos, que ainda não conseguem dizer que creram. Não falo para a sua condenação, mas para a sua consolação. A segurança total não é essencial para a salvação, mas é essencial para a satisfação”.

 

B. Mesmo assim, pode-se ainda obter a segurança por sério exame de ambas as promessas de Deus em Cristo e uma consideração das características bíblicas de uma obra do Espírito de Deus. Embora tal garantia seja uma obra do Espírito, não é da natureza de uma “revelação extraordinária”.

 

C. Se alguém se empenha em buscar fervorosamente os traços espirituais que são evidências de um coração transformado e olha com gratidão para a obra completa de Cristo, tal pessoa pode obter uma certeza que é bem fundamentada.

1. Por causa da maneira pela qual se chega à segurança, é seu dever procurá-la, pois a própria busca é um exercício de piedade prática.

2. Cornelius Tyree escreveu: “Na religião há duas proposições fundamentais igualmente verdadeiras e importantes; uma é, como não pode haver nenhum princípio religioso, a menos que seja sucedido pela prática religiosa; desse modo não pode haver prática religiosa a menos que seja precedida por um princípio religioso... Você pode, podando os membros mortos e afrouxando e amassando a terra em torno das raízes da árvore atrofiada, murchada, ressuscitá-la e torná-la frutífera. Mas não importa o quanto você possa cavar e enriquecer as raízes da árvore morta, não importa quão propícios raios de sol e água possam ter, permanecerá morta”. (Tyree, The Living Epistle, capítulo 5).

3. Mesmo assim, dar atenção espiritual e nutrir a uma vida espiritual diminuída e atrofiada conduzirá à saúde e aos frutos espirituais, e será fundamental para a segurança.

 

D. Assim, a segurança da salvação não encoraja a indolência ou a confiança injustificada, mas encoraja alguém a progredir em santidade e gratidão.

 

18:4. Os verdadeiros crentes podem ter a certeza da sua salvação abalada, diminuída e interrompida, e isso de diversas maneiras: por negligência na preservação da mesma;13 caindo em algum pecado especial que fira a consciência e entristeça o Espírito Santo;14 por cederem a alguma tentação súbita ou veemente;15 por Deus retirar de sobre eles a luz da Sua presença, permitindo que mesmo os que O temem caminhem em trevas, que não tenham luz.16 Contudo, eles nunca ficam destituídos da semente de Deus17 e da vida da fé,18 daquele amor a Cristo e aos irmãos, daquela sinceridade de coração e consciência de dever. É a partir destas graças, pela operação do Espírito, que a certeza da salvação pode ser revivificada,19 no devido tempo; e, mediante elas, os crentes são preservados para não caírem em um desespero total.20

13 Cantares 5:2,3,6 • 14 Salmos 51:8,12,14 • 15 Salmos 116:11; 77:7-8, 31:22 • 16 Salmos 30:7 17 1João 3:9 • 18 Lucas 22:32 • 19 Salmos 42:5,11 • 20 Lamentações 3:26-31

 

IV. A perda temporária de segurança é causada por uma multiplicidade de fatores, mas a graça preserva o crente do desespero.

Andrew Fuller, um dos pastores teólogos mais úteis que já ministraram na vida Batista, passou por profundas provações da alma em 1780. Em setembro ele escreveu: “Muito em dúvida sobre eu estar em estado de graça. Eu não consigo perceber que tenho, ou alguma vez tive, com qualquer constância, tal ideia de mim mesmo como possuindo a verdadeira humildade. Senhor tem misericórdia de mim, pois não sei a minha situação. Uma coisa eu sei, que se eu for um cristão, o Cristianismo real em mim está em grau inexpressivamente pequeno... Quero dizer que o funcionamento da verdadeira graça na minha alma é tão fraco, que mal acho que pode ser mais fraco em qualquer verdadeiro cristão”.

 

A. A falta de buscar tais qualidades de vida que nos assegura a promessa pode fazer com que a segurança seja enfraquecida.

 

B. Cair em pecado — aquelas obras da carne descritas em Gálatas 5:19-21 — será motivo para perda de segurança. A pessoa que assim cai necessita ser, e pode ser, restaurada, tanto à comunhão com os santos quanto à segurança da filiação.

 

C. Às vezes, o simples pensamento de tal pecado que surge com rapidez e poder no coração pode interromper o sentimento de filiação de um crente. A subida repentina do fedor do pecado que habita interiormente pode sujar as percepções espirituais do coração de uma pessoa e fazer com que a evidência da graça seja sufocada por um tempo. Esse tipo de percepção parecia operar nas lutas de Fuller com a questão da segurança. “Ó miserável homem que sou; quem me livrará do corpo desta morte? Ó minha iniquidade! Certamente eu preferiria morrer, do que sentir de novo o que senti pelos odiosos levantes deste coração profano”.

 

D. Às vezes, Deus se esconderá e lançará uma nuvem sobre nossa segurança para nos dar um sentido mais profundo de dependência dEle.

1. Thomas Watson escreveu: “Deus é um agente livre, e pode dar ou suspender a segurança pro licito, como quiser. Onde há a obra santificadora do Espírito, Ele pode reter a obra de selar, em parte para manter a alma humilde; em parte para punir nossa caminhada descuidada”. Watson tende a identificar a segurança com a selagem do Espírito. Embora eu tenha uma visão diferente da selagem do Espírito, vale a pena ponderar o ponto relativo à segurança.

 

E. Quando essas coisas acontecem, a graça transformadora do Espírito juntamente com tudo o que pertence à vida e à piedade não se foi, mas apenas fica oculta por algum tempo.

1. Watson, novamente: “A falta de segurança não impedirá o sucesso das orações do santo... A fé pode ser mais forte quando a segurança é mais fraca... Quando Deus está fora de vista, Ele não está fora do pacto”.

 

F. Essas graças se reafirmarão em algum ponto no futuro e operarão secretamente para que o filho de Deus não se desespere.

Por muitas razões, os professos devem procurar chegar a uma segurança genuína e bem fundamentada da salvação. O serviço sem reservas a Deus é um dos resultados poderosos da verdadeira segurança. Spurgeon pregou: “A plena segurança dá a um homem um zelo grato pelo Deus que ama. Estas são as pessoas que irão ao Congo por Jesus, pois sabem que são dEle. Estas são as pessoas que darão tudo para Cristo, porque Cristo é deles. Estas são as pessoas que sofrerão desprezo, vergonha e deturpação por causa da verdade, pois sabem que têm a vida eterna. Estes são os que continuarão pregando e ensinando, gastando e trabalhando, porque deles é o reino dos céus, e eles o sabes. Eu farei pouco pelo que eles duvidam, e muito pelo que eles acreditam... Quando você sabe que o céu é seu, você está ansioso para se preparar para lá. A segurança plena encontra combustível para impulsionar o zelo”.
 


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