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7º Mandamento • Os Dez Mandamentos, por C. Van Til

7º Mandamento • Os Dez Mandamentos, por C. Van Til




O Sétimo Mandamento — Pureza


O Sexto Mandamento corresponde ao Primeiro Mandamento. A transgressão do Primeiro Mandamento busca destruir Deus, como tal, e a transgressão do Sexto Mandamento busca destruir o homem como tal. O Nono Mandamento corresponde ao Terceiro, este defende o bom nome do nosso próximo e o anterior o bom nome de Deus. O Sétimo e o Oitavo correspondem ao Quarto, este defende a Deus na medida em que Ele deseja culto externo e os anteriores defendem meu próximo em sua aparência exterior. Dentre estes dois Mandamentos o Sétimo vem em primeiro lugar, uma vez que nossos corpos são mais próximos de nós do que as nossas posses.

Além da união da alma e do corpo, que juntos formam o mistério da personalidade humana, Deus trouxe os seres humanos individuais à união uns com os outros, a fim de formar uma raça. O indivíduo humano não é completo em si mesmo. Deste modo, Deus criou uma companheira para o homem e formou essa companheira como complemento para o homem, tanto na alma quanto no corpo. Com a Sua própria mão, Ele uniu os dois e ordenou que a partir de sua união a raça nascesse. Apenas na raça concluída, a imagem de Deus no homem poderia ser verdadeiramente expressa.

Estas simples ordenações da criação têm enormes consequências. Nelas reside, antes de tudo, o reconhecimento das diferenças entre homem e mulher. Tentar remover essas diferenças é contra a natureza. Nós já encontramos nos tempos do Antigo Testamento que isso foi feito. Daí as ordenanças proibindo a troca de roupas entre os sexos, etc. Cada um dos sexos tem um espaço natural de trabalho e o intrometer-se no campo de trabalho do outro tende a remover as distinções criadas por Deus, e geralmente resultam em tristes consequências.

Em segundo lugar, a santidade do casamento está envolvida na ordenação Divina da criação. Deus colocou na raça uma atração natural entre os sexos. Mas essa atração natural envolve também uma relação moral. Não haveria nada moral originalmente, testemunha disso era a ausência de qualquer sentimento de vergonha. Originalmente, o natural era bom. Devemos ter o cuidado de distinguir este sentido do termo natural daquele muitas vezes dado a ele. Muitas vezes a transgressão do Sétimo Mandamento é tolerada sobre o fundamento de que transgredir assim é “natural”. Agora, é verdade que a transgressão do Sétimo Mandamento é particularmente “natural” desde a entrada do pecado, mas isso é porque o pecado fez com que o verdadeiro natural seja “natural” no sentido de pecaminosidade.

Por conseguinte, também encontramos em terceiro lugar que, a fim de obter uma ideia verdadeiramente bíblica da relação entre os sexos não devemos começar por admitir algo deste antinatural “natural” ser verdadeira e originalmente natural. Roma erra aqui. Todo o seu ascetismo, e em particular o seu celibato do clero, é baseado na suposição de que o natural original é mau até certo ponto. Portanto, aqueles que pretendem ser mais espirituais, devem abster-se do contato com o natural, tanto quanto possível. Assim, a posição de Roma não é meramente um retorno à dispensação do Antigo Testamento quando havia ordenanças peculiares no que diz respeito ao casamento, etc., para o sacerdócio. Pelo contrário, a posição de Roma é sim uma reintrodução do semi-paganismo. As ordenanças do Antigo Testamento não foram dadas na hipótese do mal inerente da matéria, mas na suposição de que o homem tinha corrompido o natural. Mesmo a elevação Católica Romana do casamento à posição de um sacramento não escapa da acusação de ter nascido de um princípio semi-pagão. Os sacramentos na igreja Cristã têm relação com ordenanças da redenção e não da criação. E embora seja verdade e importante que a redenção restaurou o verdadeiro significado do natural e, portanto, restaurou a santidade do casamento também, esta santidade não envolve, mas, antes, exclui a ideia de sacramento. É exatamente porque Roma não tem claramente insistido sobre a santidade original do matrimônio que posteriormente inclinou-se a fazer do matrimônio um sacramento.

Então, ainda mais, a sacralidade da infância está envolvida na ordenança da criação. Parece ser algo mais do que uma fantasia desenfreada ou alegoria injustificável ver na família, composta por pai, mãe e filho, uma analogia da Trindade. A raça humana, e não apenas o indivíduo humano, deve expressar analogicamente algo do mistério da Divindade. E um dos maiores mistérios da Divindade é a interação eterna das três Pessoas da Divindade. Assim, apenas na Trindade da família algo disso poderia ser expresso. Por isso, qualquer interferência com o processo da família humana por razões triviais é uma interferência relativa ao plano de Deus. Parece ser seguro dizer que a literatura sobre o atual controle de natalidade é quase sempre motivada pela concepção antiteísta de que a vida humana pertence ao homem, em vez de a Deus.

Ainda mais, a originalidade do casamento monogâmico está implícita na ordenação da criação. Este não é apenas o caso porque Deus trouxe Eva a Adão como se fosse com Sua própria mão. Isto é significativo. Igualmente direta é a palavra de Cristo de que as concessões feitas no que diz respeito aos tempos do Antigo Testamento não modificam minimamente as ordenanças monogâmicas originais. Mas o próprio fato de que Deus criou diretamente apenas um homem e uma mulher confirma estas palavras de Jesus; também vimos que somente por meio de casamento monogâmico a família poderia ser elevada a ser realmente expressiva da Trindade de Deus. Assim, vemos que o casamento monogâmico precede a revelação especial. A Redenção também restaurou isso, mas não o apresentou pela primeira vez.

Não pode ser facilmente observado o quão radicalmente a atual concepção evolucionista da origem e natureza do matrimônio e da família se opõe à nossa posição. Deve-se observar que a visão atual não é baseada na descoberta de fatos pela antropologia moderna. Será que a antropologia prova que a relação sexual era originalmente promíscua? Será que a antropologia ensina que o casamento e a família têm gradualmente surgido até o ponto que vemos agora de modo que existam a partir da esfera não-moral da vida inferior? Negamos que ela o fez. Negamos que ela possa fazê-lo. O contexto de toda a questão não pode sequer ser tocado por qualquer ciência histórica. O cerne da questão deve ser travado entre o teísmo e antiteísmo como dois sistemas fatalmente opostos de filosofia. Tanto quanto os fatos são averiguados, eles não militam contra um casamento monogâmico original instituído por Deus.

O pecado operou estragos em toda ordenança de Deus e tem feito o maior estrago possível aqui. O primeiro capítulo de Romanos nos dá uma ideia dos estragos feitos. Toda a relação normal foi subvertida. Mesmo em nome da religião, imoralidades grosseiras foram perpetradas. E Paulo nos diz que ele não ousa sequer falar de toda a extensão à qual estas questões foram. Os pais da igreja, consequentemente, muitas vezes falaram como se a própria natureza do pecado pudesse ser expressa na palavra concupiscência.

O antiteísmo pode não ver, em tudo isso, motivo para reprovação moral. Por isso, o que existe, é certo. No máximo, pode-se falar de detritos desfigurados das algas do fundo do mar quando se vê a humanidade apenas emergindo lentamente a partir da prática animal. Consequentemente, a maior sagacidade é gasta para encontrar desculpas para o que é uma completa transgressão da lei de Deus. Ou, o que mais é o casamento de companheirismo? E o que mais é a concepção bolchevista de casamento, senão a conclusão lógica do motivo antiteísta nesta matéria? É somente devido a uma medida de graça comum de Deus que tem restringido a fruição completa deste princípio antiteísta. Devido à graça comum em conexão com os subprodutos do Cristianismo, a civilização tem sido capaz, até certo ponto, de acorrentar a besta maligna do pecado. Mas somos informados de que no futuro a medida da graça comum será reduzida de forma que o caos irá desenvolver-se na medida em que os homens perderão até mesmo sua afeição natural.

É somente com este pano de fundo que podemos entender o matrimônio e a família Cristãos. O Cristianismo é aqui, como em outros lugares, restaurador. E isto é verdade para a dispensação do Antigo Testamento, bem como para a do Novo. A única diferença é que durante na Nova Dispensação o princípio restaurador pode e deve ser mais completamente cumprido. Já vimos que o próprio Cristo disse que a posição mais baixa do Antigo Testamento era uma questão de tolerância devido às circunstâncias.

O âmago da ideia redentiva de casamento é que ele simboliza a relação da Igreja com Cristo, a sua cabeça. E uma vez que Cristo restaura o homem a Deus, o casamento simboliza toda a relação de pacto entre Deus e Seu povo. É isso que torna o casamento, se possível, ainda mais belo e sagrado do que já era como uma ordenação da criação.

Somente assim nós entendemos por que a ideia do casamento é dada com tanta proeminência no âmbito da noção de aliança durante o Antigo Testamento. Israel, como o povo de Deus, é apresentado como a noiva de Yahwéh. Toda a profecia de Oséias lida com este motivo. Yahwéh espera que Sua noiva seja impecavelmente pura. Idolatria é prostituição. E o grande amor de Yahwéh é expresso em Sua disposição de receber novamente em Seu seio a Sua esposa terrivelmente infiel. Ela era indigna de Sua escolha, em primeiro lugar. E, tendo sido feita a Sua escolhida, ela faz de si mesma alguém indigna de confiança uma e outra vez. Ainda assim, Yahwéh a ama e a purifica de toda impureza.

No Novo Testamento, a mesma ideia é demonstrada. Como um aspecto dessa ideia, podemos notar a ênfase de Paulo sobre o corpo como um templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19; 2 Coríntios 6:16). Por meio de Seu Espírito Santo, Cristo está atraindo os Seus próprios, Sua noiva, para uma relação íntima conSigo mesmo. Sendo isso totalmente realizado, toda a personalidade — o corpo bem como a alma — deve pertencer a Cristo. Por isso o Espírito Santo habita nos corpos daqueles que são de Cristo. O Cristão “não é de si mesmo”, mas de Cristo. A impureza corporal é, portanto, um insulto direto a Cristo e ao Seu amor redentor. Aqueles que são “comprados por bom preço” cofiaram aos seus cuidados os tesouros de Cristo. Ainda assim, a tentação é tão grande exatamente neste ponto. Daí a ênfase de Paulo sobre a pureza. Essa pureza deve ser interior, em primeiro lugar. Um Cristão deve especialmente controlar seus pensamentos e imaginação. Assim sendo, ele deve evitar o que é sugestivo do mal. Será que o filme que, às vezes, anuncia-se como “erótico, excêntrico, exótico, fantástico, fatalista e futurista”, ajudar o jovem Cristão, moço ou moça, a serem puros em sua imaginação? E a falta de pureza interior leva à impureza exterior em palavras ou por obras, o que é expressamente proibido no Novo Testamento. A impureza faz um Cristão impróprio para o trabalho que é de valor para o reino de Cristo. Isso retarda ou impede uma livre vida de oração, e portanto, a verdadeira espiritualidade para o indivíduo, e facilmente se torna um motivo de injúria por parte do mundo.

Mais centralmente, no entanto, o fato de que o casamento simboliza a relação de Cristo com os Seus próprios aparece quando consideramos a Igreja como um todo, em vez de seus membros individuais. Já vimos que era o povo como um todo que simbolizava a noiva do Deus da aliança no Antigo Testamento. Esta mesma ideia vem ao seu clímax final no livro de Apocalipse. O mundo é apresentado como a grande prostituta e a igreja é a noiva. E a vida futura em glória é apresentada como a união ininterrupta e pura de Cristo, o Esposo, e a Igreja, Sua Noiva. Quão santo, então, e quão belo é o amor, glorificado duplamente deste modo. Aquele que peca contra isso, peca contra a sua própria vida, seu Criador e seu Redentor.

Inculcar essa concepção teísta Cristã do amor e do casamento é o privilégio de ministros Cristãos e do povo Cristão. Se, então, o pecado tem sido e é tão excepcionalmente virulento nesta esfera, isso parece ser completamente a fim de soar uma nota especial de alerta contra qualquer influência dentro e fora do lar que tornaria mais difícil de viver conforme as exigências de Cristo. Os Cristãos não devem brincar com os inimigos que estão de fora dos portões, há, além disso, os perigosos inimigo que estão dentro dos portões. Uma coisa em particular pode ser mencionada. Como pode qualquer Cristão esperar expressar algo da bela relação de Cristo com a igreja se ele se casar com quem é incrédulo? Casamentos firmes são mui facilmente consumados em tempos em que as linhas entre a Igreja e o mundo são muito tênues. O mundanismo permitido em um lugar leva a mundanismo em outros lugares. Daí o dever sagrado de pais Cristãos fornecerem o mais sadio ambiente dentro e fora da casa, o mais puro e o melhor do deleite e da associação. É mais difícil do que costumava ser para um jovem rapaz guardar o seu caminho. Somente se, em todos os aspectos, ele for ensinado a guardá-lo de acordo com a Palavra, ele escapará das armadilhas e ciladas, e ao mesmo tempo expressará algo nessa vida daquele amor de Cristo, que Ele tem pelos Seus próprios.


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