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Graça e Livre-Arbítrio, por Agostinho de Hipona

Graça e Livre-Arbítrio, por Agostinho de Hipona




Sumário

 

Prefácio

Nota de Tradução

 

CAPÍTULO 1 — Ocasião e argumento desta obra.

CAPÍTULO 2 — A existência da liberdade da vontade no homem é provada a partir dos preceitos destinados a ele por Deus.

CAPÍTULO 3 — Os pecadores são condenados quando tentam se desculpar culpando a Deus, porque eles têm liberdade da vontade.

CAPÍTULO 5 — Ignorância não se constitui desculpa suficiente para livrar o infrator da punição; mas pecar com conhecimento é mais grave do que pecar com ignorância.

CAPÍTULO 6 — A graça de Deus deve ser mantida contra os Pelagianos; a heresia Pelagiana não é antiga.

CAPÍTULO 7 — A graça é necessária, em conjunto com a liberdade da vontade, para conduzir a uma boa vida.

CAPÍTULO 8 — Castidade conjugal é em si dom de Deus.

CAPÍTULO 9 — Orar ao entrar em tentação é uma prova da graça.

CAPÍTULO 10 — Liberdade da vontade e graça de Deus são simultaneamente elogiadas.

CAPÍTULO 11 — Outras passagens da Escritura que os Pelagianos abusam.

CAPÍTULO 12 — Paulo prova que a graça não é dada de acordo com os méritos dos homens.

CAPÍTULO 13 — A graça de Deus não é dada de acordo com o mérito, mas ela mesma produz todo bom merecimento.

CAPÍTULO 14 — Paulo primeiro recebeu a graça para que ele pudesse ganhar a coroa.

CAPÍTULO 15 — Os Pelagianos professam que a única graça que não é dada de acordo com nossos méritos, é o perdão de pecados.

CAPÍTULO 16 — Paulo lutou, mas Deus deu a vitória: ele correu, mas Deus usou de misericórdia.

CAPÍTULO 17 — A fé que ele guardou era o dom gratuito de Deus.

CAPÍTULO 18 — Fé sem as boas obras não é suficiente para salvação.

CAPÍTULO 19 — Como a vida eterna é tanto a recompensa pelo serviço, e um dom gratuito da graça?

CAPÍTULO 20 — A pergunta respondida: justificação é graça simplesmente e inteiramente; a vida eterna é recompensa e graça.

CAPÍTULO 21 — A vida eterna é “graça sobre graça”.

CAPÍTULO 22 — Quem é o transgressor da lei? Antiguidade da sua carta; a novidade do seu espírito.

CAPÍTULO 23 — Os Pelagianos sustentam que a lei é a graça de Deus que nos ajuda a não pecar.

CAPÍTULO 24 — Aqueles que desejam estabelecer sua justiça própria: “a justiça de Deus” é o que o homem tem de Deus.

CAPÍTULO 25 — A lei não é a graça pela qual somos Cristãos, nem é nossa própria natureza.

CAPÍTULO 26 — Pelagianos argumentam que a graça, que não é nem a lei, nem a nossa natureza, é útil somente para perdoar pecados passados, e não para prevenir os futuros.

CAPÍTULO 27 — A graça age sobre o cumprimento da lei, a libertação da natureza, e a supressão do domínio do pecado.

CAPÍTULO 28 — A fé é dom de Deus.

CAPÍTULO 29 — Deus é capaz de converter vontades opostas, e tirar do coração a sua dureza.

CAPÍTULO 30 — A graça pela qual o coração de pedra é removido não é precedido por bons méritos, mas pelos maus.

CAPÍTULO 31 — Liberdade da vontade tem sua função na conversão do coração; mas a graça também tem sua função.

CAPÍTULO 32 — Em que sentido é corretamente dito que, se quisermos, poderemos guardar os mandamentos de Deus.

CAPÍTULO 33 — A boa vontade pode ser pequena e fraca; uma vontade plena possui uma grande operação de amor e graça cooperadora.

CAPÍTULO 34 — O elogio do Apóstolo ao amor. Correção deve ser administrada com amor.

CAPÍTULO 35 — Recomendações do amor.

CAPÍTULO 36 — Amor recomendado pelo próprio Nosso Senhor.

CAPÍTULO 37 — O amor que cumpre os mandamentos não é de nós mesmos, mas de Deus.

CAPÍTULO 38 — Nós não amaríamos a Deus a menos que Ele não nos tivesse amado primeiro. Os Apóstolos escolheram Cristo, porque eles foram escolhidos; eles não eram escolhidos porque escolheram Cristo.

CAPÍTULO 39 — O espírito de temor é um grande dom de Deus.

CAPÍTULO 40 — Pelagianos são ignorantes ao defender que o conhecimento da lei vem de Deus, mas o amor vem de nós mesmos.

CAPÍTULO 41 — As vontades dos homens estão tão no poder de Deus, que Ele pode transformá-las no que Lhe agradar.

CAPÍTULO 42 — Deus faz o que Ele quer, mesmo nos corações dos homens maus.

CAPÍTULO 43 — Deus opera nos corações humanos: inclina as suas vontades ao que Lhe apraz.

CAPÍTULO 44 — Graça gratuita exemplificada em crianças.

CAPÍTULO 45 — A razão pela qual uma pessoa é assistida pela graça, e outra não, deve ser remetida aos desígnios secretos de Deus.

CAPÍTULO 46 — Entendimento e sabedoria devem ser buscados em Deus.

 


 

Graça e Livre-Arbítrio
Um tratado por Agostinho de Hipona

 

Um tratado endereçado a Valentino e aos monges de Adrumetum, e concluído em um só livro.

Escrito em 426 ou 427 D.C.


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Prefácio
 

Neste tratado[1] Agostinho nos ensina a tomar cuidado em sustentar a graça pela negação da liberdade da vontade, ou a liberdade da vontade pela negação da graça; pois é evidente a partir do testemunho da Escritura que há no homem uma livre escolha da vontade; e também existem nas mesmas Escrituras provas inspiradas dadas daquela mesma graça de Deus, sem a qual nada podemos fazer de bom. Depois, em oposição aos Pelagianos[2], ele prova que a graça não é concedida de acordo com os nossos méritos[3]. Ele explica como a vida eterna, que é concedida para as boas obras, é realmente de graça. Então, passa a mostrar que a graça que nos é dada por nosso Senhor Jesus Cristo não é nem o conhecimento da lei, nem natureza, nem simplesmente a remissão dos pecados; mas que é a graça que nos faz cumprir a lei, e faz com que a natureza seja libertada do domínio do pecado.

Agostinho demole aquele subterfúgio vão dos Pelagianos, no sentido de que “a graça, embora não seja concedida de acordo com o mérito das boas obras, ainda é dada de acordo com o mérito da antecedente boa-vontade do homem que crê e ora”. O autor incidentalmente toca a questão, por que Deus ordena o que Ele mesmo pretende dar, e se Ele nos impõe quaisquer comandos que não somos capazes de realizar.

O presente tratado mostra claramente que o amor, que é indispensável para o cumprimento dos mandamentos, só está dentro de nós vindo do próprio Deus. Ressalta que Deus opera no coração dos homens para inclinar suas vontades para o que Ele quer, seja para boas obras segundo a Sua misericórdia, ou más obras em retribuição ao que merecem — Seu julgamento, na verdade, sendo às vezes manifesto, às vezes escondido, é sempre justo.

Por fim, Agostinho nos ensina que um exemplo claro da gratuidade da graça, dela não ser dada em troca de nossos méritos, é o caso de que crianças são salvas, enquanto outras perecem, sendo tal caso idêntico ao do resto da humanidade.

 


 

Nota de Tradução


Traduzimos a expressão inglesa “free will” (lit. livre vontade), por “liberdade da vontade”, na grande maioria das vezes que ela aparece neste tratado. Com exceção apenas do próprio Título e de uma outra ocorrência no Cap. 1.

O motivo para tal é a perversão generalizada do conceito do que é “livre-arbítrio” prevalecente em nossos dias — mesmo alguns que se dizem Reformados ignoram completamente o sentido etimológico clássico deste termo. O que hoje, de forma geral, se entende por “livre-arbítrio”, dentro e fora da Cristandade, é algo completamente diferente do que é proposto por Agostinho neste tratado; tal termo e conceito teológico foi completamente pervertido principalmente pelos seguidores da tradição Wesleyana-Arminiana. Semelhante caso acontece com o termo e conceito bíblico, Agostiniano, Luterano e Calvinista de “graça preveniente” (veja Cap. 38, inclusive nota de rodapé), que também foi completamente pervertido.

Assim, para evitar mal-entendidos e para não dar ocasião para tais pervertedores[4] e para suas perversões, resolvemos usar o termo “liberdade da vontade” como tradução para “free will”, aliás, esta é a melhor tradução para a expressão e a realidade bíblica-semântica que nela se encerra, como nos mostrou o genial Jonathan Edwards em seu tratado magistral sobre o tema, A Freedom of the Will.[5]

Para conluir esta breve nota de tradução queremos apenas deixar aqui registrado qual é o entendimento e definição do conceito clássico que os Cristãos bíblico-ortodoxos creem acerca do termo teológico, “livre-arbítrio”:
 

1. Deus dotou a vontade do homem com tal liberdade natural e poder de ação em escolha, que ela não é nem forçada, nem predeterminada para o bem ou o mal por qualquer necessidade da natureza (Mateus 17:12; Tiago 1:14; Deuteronômio 30:19).

2. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus (Eclesiastes 7:29); mas ainda assim, era instável, de forma que ele podia cair deste estado (Gênesis 3:6).

3. O homem, por meio de sua queda em um estado de pecado, perdeu completamente todo o poder da vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação (Romanos 5:6, 8:7); assim como um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto em pecado (Efésios 2:1, 5), não é capaz, por sua própria força, de converter-se ou preparar-se para isso (Tito 3:3-5; João 6:44).

4. Quando Deus converte um pecador e o transporta para o estado de graça, Ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado (Colossenses 1:13; João 8:36) e, por Sua graça, o habilita a livremente querer e fazer aquilo que é espiritualmente bom (Filipenses 2:13); ainda assim, em razão de sua corrupção remanescente, ele não o faz perfeitamente, nem apenas deseja o que é bom, mas também o que é mau (Romanos 7:15, 18, 19, 21, 23).

5. A vontade do homem é feita imutável e perfeitamente livre somente para o bem, apenas no estado de glória (Efésios 4:13)

 

(Capítulo 9, Sobre o Livre-Arbítrio, A Confissão de Fé Batista de 1689)

 


Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível,
Ao único Deus sábio, Senhor e Salvador nosso,
Seja glória e majestade, louvor e honra, domínio e poder,
Agora, e para todo o sempre. Amém e Amém!


— William Teixeira,
12 de Maio de 2016.

 


 

CAPÍTULO 1

Ocasião e argumento desta obra.

 

Com referência às pessoas que assim pregam e defendem o livre-arbítrio do homem, a ponto de negarem ousadamente e esforçarem-se para abolir a graça de Deus, que nos chama para Ele, e que nos livra de nossos deméritos, e pela qual obtemos os méritos que levam para a vida eterna: já dissemos uma boa parte em discussão, e escrevemos, tanto quanto o Senhor concedeu nos capacitar. Todavia, uma vez que existem algumas pessoas que defendem a graça de Deus negando a liberdade da vontade do homem, ou que supõem que a liberdade da vontade é negada quando a graça é defendida, me determinei a escrever um pouco sobre esse ponto ao meu amado irmão Valentino, e ao restante de vocês que estão servindo a Deus juntos sob o impulso de um amor mútuo. Pois, me foi dito acerca de vocês, irmãos, por parte de alguns membros de sua fraternidade que nos visitaram, e que são os portadores dessa nossa comunicação para vocês, que existem dissensões entre vocês sobre este assunto. Sendo este o caso, amados, para que vocês não sejam perturbados pela obscuridade desta questão, eu aconselho primeiro a agradecerem a Deus pelas coisas que vocês já entendem; mas para tudo que está além do alcance de suas mentes, orem por compreensão da parte do Senhor, observando, ao mesmo tempo, paz e amor entre vocês; e até que Ele mesmo os leve a perceber o que no presente está além de sua compreensão, andem firmemente no fundamento sobre o qual vocês têm segurança. Este é o conselho do Apóstolo Paulo, que, depois de dizer que ele ainda não era perfeito, um pouco depois acrescenta: “Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento” (Filipenses 3:15) querendo dizer perfeito até certo ponto, mas não tendo alcançado uma perfeição suficiente para nós; e então acrescenta imediatamente: “E, se, porventura, pensais de outro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos” (Filipenses 3:16). Pois, ao andar no que já alcançamos, seremos capazes de avançar para o que ainda não alcançamos — Deus o revelando a nós se em algo pensamos diferente — supondo que não desistamos do que Ele já revelou.


 

CAPÍTULO 2

A existência da liberdade da vontade no homem é provada a partir dos preceitos destinados a ele por Deus.


Agora, Ele nos revelou, através de Suas Sagradas Escrituras, que há no homem uma livre escolha da vontade. Mas como Ele revelou isso eu não conto em linguagem humana, mas Divina. Há, para começar, o fato de que os preceitos de Deus em si seriam de nenhuma utilidade para um homem a menos que tivesse livre escolha da vontade, de modo que ao cumpri-los, ele pode obter as recompensas prometidas. Pois, eles são dados para que ninguém possa ser capaz de invocar a desculpa da ignorância, como diz o Senhor a respeito dos judeus no Evangelho: “Se eu não viera, nem lhes houvera falado, pecado não teriam; mas, agora, não têm desculpa do seu pecado” (João 15:22). De que pecado Ele fala, senão daquele grande pecado que de antemão conhecia enquanto falava assim, que eles fariam a sua própria, ou seja, a morte que eles estavam indo Lhe infligir? Porque eles não tinham “nenhum pecado” antes de Cristo vir a eles em carne. O apóstolo também diz: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, por que Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Romanos 1:18-20) Em que sentido ele afirma serem eles “indesculpáveis”, exceto com referência a essas desculpas como o orgulho humano está apto a alegar em palavras como: “Se eu soubesse, eu teria feito isso; não falhei em fazê-lo por ser eu ignorante disso?”, ou “Eu faria isso se eu soubesse como; mas eu não sei, portanto, não hei de fazê-lo”? Toda essa desculpa é removida deles quando o preceito lhes é dado, ou quando o conhecimento lhes é manifestado, como evitar o pecado.

  

CAPÍTULO 3

Os pecadores são condenados quando tentam se desculpar culpando a Deus, porque eles têm liberdade da vontade.


Há, no entanto, as pessoas que tentam encontrar desculpas para si até mesmo a partir de Deus. O Apóstolo Tiago diz a essas pessoas: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tiago 1:13-15). Salomão, também, em seu livro de Provérbios, tem essa resposta para aqueles que desejam encontrar uma desculpa para si a partir do próprio Deus: “A estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o Senhor que o seu coração se ira” (Provérbios 19:3). E no livro de Eclesiástico[6], lemos: “Não digas: ‘É o Senhor que me faz pecar’, porque Ele não faz aquilo que odeia. Não digas ‘É ele que me faz errar’, porque Ele não tem necessidade de homem pecador. O Senhor odeia toda espécie de abominação e nenhuma é amável para os que O temem. Desde o princípio Ele criou o homem e o deixou nas mãos de Seu próprio conselho. Se quiseres, observarás os Seus mandamentos para permanecer fiel. Ele colocou diante de ti o fogo e a água; para o que quiseres estenderás tua mão. Diante dos homens está a vida e a morte, ser-te-á dado o que preferires”. Observe como mui claramente é definida diante os nossos olhos a livre escolha da vontade humana.

  

CAPÍTULO 4

Os comandos Divinos mais adequados para a vontade, eles mesmos ilustram a sua liberdade.


Qual é o significado do fato de que, em tantas passagens, Deus exige que todos os Seus mandamentos sejam mantidos e cumpridos? Como é que Ele estabelece este requisito se não há liberdade da vontade? O que significa “o homem bem-aventurado”, de quem o salmista diz que seu prazer[7] era a lei do Senhor? (Salmos 1:2)? Será que ele não mostra claro o suficiente que um homem por sua própria vontade se posiciona pela lei de Deus? Então, novamente, há tantos mandamentos que de alguma forma estão expressamente adaptados à vontade humana; por exemplo, há, “Não te deixes vencer do mal” (Romanos 12:21) e outros de semelhante significado, tais como, “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento” (Salmos 32:9) e, “Não deixes a instrução de tua mãe” (Provérbios 1:8) e,” Não sejas sábio aos seus próprios olhos” (Provérbios 3:7) e “Não rejeites a disciplina do Senhor” (Provérbios 3:11) e, “Não te esqueças dos meus ensinos” (Provérbios 3:1) e, “Não te furtes a fazer o bem a quem de direito” (Provérbios 3:27) e, “Não maquines o mal contra o teu próximo” (Provérbios 3:29) e, “não dê atenção a uma mulher sem valor” (Provérbio 5:2 – Tradução Literal) e, “Ele não está inclinado a entender como fazer o bem” (Provérbios 2:9 — Tradução Literal) e,” Não quiseram o meu conselho” (Provérbios 1:30) com inúmeras outras passagens das Escrituras inspiradas do Antigo Testamento. E o que todas mostram a nós, senão a livre escolha da vontade humana? Então, novamente, nos livros evangélicos e apostólicos do Novo Testamento, que outra lição nos é ensinada, como quando se diz: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra” (Mateus 6:19) e, “Não temais os que matam o corpo” (Mateus 10:28) e, “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue” (Mateus 16:24) e de novo: “paz na terra aos homens a quem ele quer bem” (Lucas 2:14). Assim também diz o apóstolo Paulo: “Não peca, que se casem. Todavia, o que está firme em seu coração, não tendo necessidade, mas domínio sobre o seu próprio arbítrio, e isto bem firmado no seu ânimo, para conservar virgem a sua filha, bem fará” (1 Coríntios 7:36-37). E assim de novo, “Se o faço de livre vontade, tenho galardão” (1 Coríntios 9:17), enquanto em outra passagem ele diz: “Tornai-vos a sobriedade, como é justo, e não pequeis” (1 Coríntios 15:34) e mais uma vez, “para que, assim como revelastes prontidão no querer, assim a leveis a termo” (2 Coríntios 8:11). Então ele comenta a Timóteo sobre as viúvas mais jovens, “Quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se” (1 Timóteo 5:11). Assim, em outra passagem: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Timóteo 3.12), enquanto que para o próprio Timóteo ele diz: “Não te faças negligente para com o dom que há em ti” (1 Timóteo 4:14). Então, a Filemon ele dirige esta explicação: “Para que a tua bondade não venha a ser como que por obrigação, mas de livre vontade” (Filemon 1:14). Aos servos também ele aconselha obedecer seus mestres “de boa vontade” (Efésios 6:7). Em estrita conformidade com isso, Tiago diz:” Não vos enganeis, meus amados irmãos” (Tiago 1:16) e “Não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo em acepção de pessoas”[8] (Tiago 2:1) e, “Não faleis mal uns dos outros” (Tiago 4:11). Assim também João em sua epístola escreve: “Não ameis o mundo” (1 João 2:15) e outras coisas de significado semelhante.

Agora onde quer que esteja dito, “Não faça isso” e “Não faça aquilo”, e onde quer que haja qualquer requisito nas admoestações Divinas para que o trabalho da vontade faça qualquer coisa, ou abstenha-se de fazer qualquer coisa, há, de uma só vez, prova suficiente da liberdade da vontade. Nenhum homem, por isso, quando pecar, pode em seu coração culpar a Deus por isso, mas todo homem deve imputar a culpa a si mesmo. Isso também não diminui de modo algum a própria vontade de um homem quando ele executa qualquer ato em conformidade com Deus. De fato, uma obra deve ser chamada boa, quando uma pessoa a faz voluntariamente; então, também, que a recompensa de uma boa obra possa ser esperada dEle conforme está escrito: “Retribuirá a cada um conforme suas obras” (Mateus 16:27).

 

 

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[1] Chamamos a tenção do leitor Cristão Bíblico para o fato de que Agostinho aqui, como em outros lugares, às vezes, refere como “Escrituras” livros que na verdade são Apócrifos. A respeito dos mesmos reafirmamos a posição de nossa Confissão: “Os livros comumente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração Divina, não fazem parte do cânon ou regra da Escritura; e, portanto, não são de autoridade para a Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados, senão como escritos humanos (Lucas 24:27, 44; Romanos 3:2)” (CFB1689, Capítulo 1, parágrafo 3). Por fim, exortamos — e isto é válido para todo este livro — à observação da seguinte passagem das Sagradas Escrituras (CFB1689 1:1-2) que são a única, suficiente, correta e infalível regra de todo conhecimento, fé e obediência salvíficos: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21) — N.R.

[2] Pelágio (354-420 c.) e os seus apoiadores citaram Deuteronômio 24:16 para negar o pecado original: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado”. Ele foi declarado herege pelo Conselho de Cartago (419). Pelágio passou um tempo como um asceta e foi amplamente admirado, mesmo Agostinho descreveu-o como um “homem santo”. Pelágio tinha sido chocado com o devasso comportamento dos Cristãos em Roma. Eles, então, abusavam da sua liberdade em Cristo, e liberdade da lei, de modo que eles trouxeram o nome de Cristo em condenação (Romanos 2:24; 6:1). Para corrigir essa falta de autocontrole, Pelágio destacou a santificação pela piedade sob a Lei, mais a justificação pela graça no âmbito do Evangelho. Isso levou a um mal-entendido geral dos papéis da Lei e do Evangelho na salvação. O Pelagianismo acrescenta obras para a graça como um meio de justificação, ao invés de obras sendo a prova indispensável da graça justificadora de Deus. Agostinho prova que somos justificados (salvos) pela graça de Deus somente, e que também somos santificados (vivemos com Deus) pela graça de Deus, mesmo que nós cuidamos da nossa salvação com temor e tremor (Filipenses 2:12), é a Deus graça operando em nós pelo Seu Espírito (Colossenses 1:29; Efésios 3:7; 1 Pedro 1:2), por meio da fé (Efésios 2,8-9; Atos 2:38). Esta é a grande verdade redescoberta na época da Reforma, mas conhecida desde o início.

 

[3] Aquilo que é merecido ou devido; um castigo ou recompensa justa.

 

[4] Existem pessoas em nossos dias que se atrevem a sugerir que Lutero não era completamente monergista, ou que os Cinco Solas da Reforma Protestante e a Confissão de Westminster apoiam de alguma forma a posição Arminiana. Estes exemplos são citados apenas para dar uma ideia do que me refiro ao falar de “pervertedores” e para mostrar o nível de perversão a que alguns chegam.
 

[5] Traduzimos este tratado do Edwards. O mesmo está agora em fase de revisão, esperamos que seja publicado nas próximas semanas, se nosso Deus quiser.
 

[6] Esta é uma citação de “O Livro da Toda-Virtuosa Sabedoria de Joshua ben Sira”, comumente chamado a Sabedoria de Sirach, ou simplesmente Siraque. Começando com Cipriano, ele era conhecido como O Livro do Eclesiástico, não confundir com Eclesiastes.
 

[7] Sua alegria.
 

[8] Tiago 2:1: Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, [juntamente] com parcialidade.

 


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